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domingo, 18 de agosto de 2013
Especulando algo em torno de uma ficção para a dramaturgia cênica.
correndo desorientado rumo a uma rua sem movimento
Eu posso ainda gora ouvir os seus gemidos
ele estava derretendo
arrancou o casaco, as botas já derretendo
e se livrou do fogo, que consumia em fogueira
o resto da sua identidade
tudo frito e tornado cinza
no chão do asfalto.
Eu me aproximei dele, foi preciso correr um pouco
e perguntei se ele precisava de ajuda
Eu estava com a minha câmera pendurada no corpo
ele olhou a câmera
mirou meu rosto
e resmungou o peito queimado, ainda soltando fumaça
Os olhos dele estavam fechados, escuros
talvez, eu pensei, também tivessem se queimado
Eu olhei o homem pós-chama jogado ao chão
bonito, delicado, queimado
eu olhei em seus olhos
e estendi meus dois braços
ele me respondeu, imediato, agarrando-me e se erguendo
fazendo meu corpo como apoio
Depois saiu mancando, me deixando parada
se aproximou do chão, onde seu casaco queimado soltava fumaça
e o ergueu
Foi então que eu vi brilhando
feito estrela
a condecoração do militar que em chamas
por alguns minutos
se perdeu da exigência de ser em si próprio a truculência
Continuei parada, não acreditando que fosse possível o que viria a seguir
Ele então arrancou sua medalha, acomodou-a ao chão
e saiu mancando
com o casaco puído de militar
querendo se passar apenas por um mendigo qualquer
disposto a morrer
mas não a matar
não mais.
Afirmação a partir do quadro 4
segunda-feira, 15 de julho de 2013
reencontro #1
Recomeço
terça-feira, 26 de fevereiro de 2013
domingo, 24 de fevereiro de 2013
lembro que não tinha som ---
sexta-feira, 22 de fevereiro de 2013
poema verbal ---
terça-feira, 29 de janeiro de 2013
Afastamento ---
quinta-feira, 13 de dezembro de 2012
Retomar Intuições
Creio que existam intuições somente quando ainda há algo a ser duvidado.
Neste sentido, NÃO DOIS é um poço de dúvidas.
É poesia (que nunca comportará um só sentido).
Estou ansioso para novamente me lançar ao desafio.
2013 chega com o retorno do primeiro trabalho de nossa companhia.
É possível coexistir horror e afeto num mesmo gesto?
quarta-feira, 5 de outubro de 2011
Sobre aprisionamento(s)
Tentarei relatar um pouco sobre a experiência que foi apresentar NÃO DOIS na Penitenciária Feminina Tavalera Bruce, em Bangu. Nossa presença aconteceu dentro do projeto Teatro na Prisão, desenvolvido dentro da Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro – UNIRIO. Na terça-feira dia quatro de outubro, por volta de 10h começávamos a apresentar nosso espetáculo, rodeados por cerca de cinquenta mulheres e mais uma dezena de profissionais (dentre eles diretora e vice-diretora da prisão, além de coordenadoras e professoras da Escola na qual boa parte das detentas assistem aula).
Fomos até a prisão numa van, da própria Unirio. Ao chegar, deixamos dentro do automóvel tudo o que não fosse estritamente necessário a execução da peça. Deixei minha mochila, carteira, chaves de casa, celular, moedas. Entrei somente com a roupa do corpo (que não podia ser de algumas cores específicas) e com a carteira de identidade. Levamos o cenário nós mesmos, cruzando os corredores da penitenciária e cumprimentando as inúmeras mulheres que ali trabalhavam. Poucos homens ocupavam o espaço. Os dois seguranças da porta de entrada e, fora estes, sobrava eu, o ator Dan Marins e um estagiário do projeto Teatro na Prisão.
Entramos, depois de muitos corredores, num auditório. Um espaço sujo, com cheiro de fezes, completamente empoeirado, no qual já estavam dispostas algumas dezenas de cadeiras plásticas, brancas. Havia um palco, cerca de oitenta centímetros acima do chão onde a audiência ficaria. Optamos por realizar a apresentação no mesmo “andar” que o das mulheres que nos assistiriam. Recortei a área cênica com uma fita crepe, criando uma área de 6m de largura por 5m de comprimento. Posicionamos as cadeiras tanta na frente desta área como nas duas laterais, preservando a parede dos fundos.
Não tivemos muito tempo. A segurança, responsável pela porta do auditório, solicitava que deixássemos as mulheres entrar, por conta da algomeração que havia se criado do lado de fora. Os atores rapidamente trocaram suas roupas. Quando entramos na prisão, fomos abordados por conta de uma calça masculina preta. É esse o figurino de Dan, porém, é também a cor e a vestimenta características dos seguranças. Logo, fomos avisados de que deveríamos voltar com a calça, que isso seria revistado quando voltássemos.
Mal os atores se posicionaram no espaço e as mulheres começaram a entrar no espaço. Foi curioso, entraram com certa urgência, se posicionando nas cadeiras e no chão. Por um segundo me assustei, porque a maioria entrou na sala com as mãos para trás. Achei que estivessem algemadas, mas não. Era apenas algum comportamento “aprendido” ali dentro. Elas andavam com as mãos para trás naturalmente. E eu olhando todas aquelas mulheres e tentando medir, de alguma forma, o que nos separava. Qual horror, ou acontecimento, que as fazia prisioneiras daquele lugar. Enfim, não posso esconder que fiquei surpreso ao não encontrar nada. Busquei seus olhos e o clichê da instituição prisão aos poucos foi perdendo força e cor. Não que eu não soubesse disso, mas eram mulheres, antes de tudo, eram pessoas.
Muito barulho. Falatório. A coordenadora do projeto disse algumas palavras, agradecendo a presença de todas as presidiárias. Em seguida, fui eu quem pontuei algumas coisas. Falei que apresentaríamos o espetáculo NÃO DOIS. Informei que a duração era de aproximadamente quarenta minutos e que no fim, se possível, gostaria muitíssimo de conversar, bater um papo, ouvir e falar sobre aquilo que dentre em pouco assistiríamos. Pedi a todas o máximo de silêncio, para que pudéssemos ouvir tudo e, em silêncio, me repreendi por tê-las pedido – mais uma vez – silêncio.
Não sei exatamente o que esse texto quer dizer. Não me preocupo. Meus pré-conceitos devem estar saltando e aparecendo. Tudo bem. A experiência vivida com esta apresentação faliu muitas coisas, muitas noções, muitos sentidos. Durante a apresentação, era nítido que os atores (Dan e Natássia) tentavam, por vezes, falar mais alto, puxando a atenção de volta a cena. Foi curioso ouvir risadas, comentários sobre a primeira cena. Foi curioso ver mãos nas bocas, olhares perplexos lançados para lá e para cá. Achei que a peça, de fato, não as pudesse interessar, mas era cedo demais para pensar qualquer coisa. Me contentei em assistir ao espetáculo.
A nossa estrutura geral do espetáculo foi simplificada. Era um auditório completamente iluminado por inúmeras janelas que não puderam ser cobertas. A escuridão, tão necessária ao espetáculo, se perdeu. As luminárias, nem chegaram a entrar na penitenciária. Eram apenas os atores dentro de um área demarcada. E eu pensando sobre essencialidade. Eu pensando em espetacularização e por ai vai.
Algumas mulheres foram ao banheiro. Outras estavam muito atentas. O texto de Pavlovsky, completamente rebuscado ou, nem isso, apenas recheado de palavras pouco usuais, causava aproximações e afastamento. Eu nem vi a peça. Eu vi seus olhos. Eu ali me sentindo um cara estranho, errado, tentando ler nos olhos daquelas mulheres alguma coisa. Era tão especial tudo aquilo. E os olhos sempre dizem mais do que dizemos.
Pensei de novo em encontro. Pensei mesmo. Eu pensei um pouco mais sobre o que significa levar a uma prisão uma peça que fala de aprisionamento, que fala de violêncio contra a mulher, que fala de morte e dependência. Uma peça que fala de sobrevivência, vingança, temas que até então me eram temas e nem tanto acontecimento. Temas como conceitos. Vazios de jogo, de corpo e tudo mais. Apenas ideias. Ali, alguma coisa foi tornando as palavras mais densas do que eram. Os corpos dos atores, atritando, se batendo, a cena – aquele artificial todo – foi ficando mais grave, mais leve, ficando mutante e respirando.
Talvez você que lê este texto esteja me achando muito romântico, apaixonado ou coisa assim. Tudo bem. Eu talvez esteja embriagado pela força que este encontro abriu. Eu pensando sobre pontos de vista. Sobre quais pontos de vista aquelas mulheres miravam aquele objeto, aquela cena. A violência do personagem masculino sobre a feminina foi se intensificando. E um pouco mais. E a sedução ao mesmo tempo crescente. E algumas mulehres reagiam com palavras, gritos, reagiam com selar de mãos e braços, entre elas. Quando o espetáculo chegou ao fim, com a personagem feminina “vencendo” a opressão masculina, foi algo como a redenção de todas. Vibravam e gritavam e, em seguida, muitas palmas. Enquanto eu pensava meu deus, eu não acho isso bom. Mas, importa o que eu acho?
Puxamos um bate-papo e pronto. Muitas falaram, as opiniões se multiplicaram e as certezas morreram, intranquilas. Fiz perguntas, fomos perguntados. Especulamos outras possibilidades. Contei alguns casos, detalhes da criação, falei do processo, do vestido de casamento da minha mãe. Ouvi daquelas mulheres coisas como “ela estava desde o início tramando uma vingança”; “a vilã é ela”; “isso tá acontecendo na cabeça dele”; “isso que vocês apresentaram é exatamente a realidade”; “eu vivi isso, durante dez anos”; “ela fez isso com medo de apanhar dele”… Em suma, nossa conversa ficou num entre vida e obra que nunca foi tão interessante. Falamos do aprisionamento, eu puxei um papo sobre o aprisonamente, eu ali logo em seguida me culpando por estar falando certas palavras. Mas, depois, confesso, eu pensei, que essas mulheres sabem o que era tudo aquilo. Falar de aprisonamento era como chover no molhado. Era redundante. Eu não deveria me exigir tanto cuidado, tanto zelo.
Foi papo franco e sem frescura. Algumas mulheres se emocionaram, começamos a falar de experiências pessoais e a “multiplicação dramática” de Eduardo Pavlovsky em plena ação. No final, muitos agradecimentos, abraços, apertos de mão. A coordenadora do projeto disse que esperava muito que as mulheres interessadas na aula de teatro (ministradas por estagiários) pudessem se inscrever. E, por conta do horário oferecido para tal aula (apenas dois dias, no turno da manhã), a diretora da prisão informou que as mulheres que estudassem de manhã, poderiam ir para a aula de teatro que ainda assim teriam sua presença (do colégio) contada da mesma forma.
Não sei mais o que escrever. Tenho a sensação de que ficarei ainda um tempo com tudo isso na cabeça. Esse texto é menos verdade e mais um relato (em palavras) daquilo que gostaria de registrar, para não correr o risco de esquecer a potência daquilo que chamamos ser nosso trabalho.
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segunda-feira, 3 de outubro de 2011
depois de alguns anos
é chegado o momento de apresentar NÃO DOIS numa penitenciária. durante muito tempo, desde o início do processo, este momento foi pensado, especulado, imaginado. qual será a força do espetáculo para homens e mulheres que estão aprisionados em celas?
não sei responder a nada. aguardo – ansioso – por este encontro. queremos muitíssimo dialogar ao fim da apresentação. queremos trocar. ouvir, falar. queremos encontrar. falar disso que nos toca a todos.
será uma única apresentação, numa penitenciária feminina. em parceria com o projeto “teatro da prisão”, o teatro inominável se lança a este novo lugar, completamente desconhecido.
sábado, 20 de agosto de 2011
# 43
temos uma apresentação marcada para 23 de setembro, dentro de um festival na unirio, aqui no rio de janeiro.
ESPAÇO DO DELÍRIO + TEMPO DILATADO
# 42
04 de novembro de 2010 – Unirio – 17h/20h
dan marins, diogo liberano e natássia vello.
passadão. refizemos o final do espetáculo. natássia entende que ELA (quando aceita a própria morte) consegue abandonar seu próprio corpo.
este relato de ensaio está sendo postado meses depois. disse a frase acima para a nat e ela me perguntou foi é?
vamos começar o nosso ensaio número 43.
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# 41
02 de novembro de 2010 – Rampa – 09h30/14h
dan marins, diogo liberano e natássia vello.
ensaio para sondar o espaço. ele tem nome: dojo. o chão é feito tatame. é neste espaço que iremos nos apresentar. este relatório de ensaio está sendo postado muito tempo depois do próprio ensaio.
pensando sobre algum gráfico crescente, progressivo, mais acentuado do que a estrutura já conhecida. como ir intensificando aos poucos a parada? o drama?
tentativas.
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domingo, 17 de julho de 2011
para um futuro próximo
terça-feira, 28 de junho de 2011
A LEMBRANÇA DOS MOVIMENTOS
segunda-feira, 20 de junho de 2011
O VAZIO DA PERDA DO SENTIDO
terça-feira, 14 de junho de 2011
SOBRE DETALHES E INTENSIDADES
segunda-feira, 25 de abril de 2011
Especulações sobre o corpo
EIKO & KOMA
- ELA DORMINDO
- ELA DORMINDO E ELE A VENDO
- ELA DORMINDO E ELE A MANIPULANDO
- ELA DORMINDO E SE MANIPULANDO
A memória do movimento (do outro) no próprio corpo.
Nada a esconder, nada a mostrar;
Ser movido por um parceiro invisível (mobilizado e movido por uma outra pessoa e depois o trabalho segue só com a memória desse movimento);
Sonambolismo (dormir em pé – exemplo do metrô de Tóquio, que é muito comprimido. Fazer apoios de pé ou deitado);
Nunca a intencionalidade ou a objetividade é total;
Mostrar a pele mais fininha (aquela parte que os mosquitos mais gostam de morder);
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Diogo Liberano
domingo, 24 de abril de 2011
RESGATE
Como escrever isso que vou tentar agora? NÃO DOIS termina no exato instante em que percebemos que a existência de um acaba também quando a do outro acaba. Que final fatídico, que determinação quase grega, inexorável.
O amor talvez pudesse ser mais livre, eu penso agora, olhando para trás e vendo o atrás novamente agora ao meu lado. Sim, não precisa morrer, não precisa matar. Para além de tudo o que eu acho sobrevivem os corpos a se procurar. E é nessa toada que toda a ficção se recria. É no seu ir e no meu vir que as coisas todas se reescrevem e a inexatidão dessa inscrição é o que nos guia.
Sim, parece tudo muito solto, mas é como eu penso neste instante. São corpos que seguem vagando e vagar é desde já ação no tempo. Se ELA hoje se encontra só, se ELE morreu sem o seu corpo ali disponível (a todo e qualquer ato seu, a todo e qualquer soco ou beijo), bom, não podemos afirmar que isso seja um fim.
O fim é uma coisa que não existe, a princípio, pois o corpo sabe hoje bailar até mesmo a sua perdição. E então a Natássia posta esse vídeo com esse belo nome chamado ten duets on a theme of rescue. full. Talvez o full não fizesse parte, apesar de fazer todo o sensível. Quer dizer: dez duetos num tema sobre resgate. E isso tudo chega enfim ao fim por inteiro, por completo.
NÃO DOIS. Não mais dois, talvez. Não é número, talvez, hoje, mais do que nunca, seja sobre aprender a ser um e ser o outro. Seja sobre alguma outra coisa que não somente sobre impedimento. Que amor matamos ao teorizá-lo? Que terror resolvemos no verbo e não deixamos correr pelo corpo? O tema do resgate me sugere mais do que nunca tentar de novo. E talvez nisso encontraremos nossa vocação. E talvez nesse se purgue a existência e se colora de novo um novo horizonte.
Um novo chão. Uma nova cena. Dez novos duetos em composições mil. O fim só faz sentido se eu ver lado a ele a sua tentativa tenaz de um recomeço. Fim pelo fim a gente fica onde está e não se fala mais nisso. A nossa peça pode ser pessimista, mas ninguém sabe que dentro de nós – artistas – ainda batem três músculos involuntários.
Um documentário cênico, talvez. A ação do tempo. Mais meta impossível. Desenvolvimento. Minhas intuições estão lacradas, a espera de vocês, atores. Busquem-me, os dois, ao mesmo tempo. Para que possamos enfim conversar sobre o que, sendo nosso, anda de nós perdido e ao relento. Sim, a poesia por vezes coincide com a vida. O que fazer? Responder a altura. Responder a altura.
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Diogo Liberano
