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sábado, 17 de agosto de 2013

7 | Ela no segundo anterior à morte.

ELA Você sabe por quê?
ELE Por quê?
ELA Eu pergunto se haveria em você algum tipo de convicção, pelo menos nos primeiros tempos, quando nos conhecemos, nos começos.
ELE Convicções, convicções...
ELA Idéias, simplesmente idéias.
ELE Eram apenas nossos encontros que modificavam tudo... Custei a perceber isso. Porque você se transformou em NECESSIDADE para mim. Necessidade dos nossos corpos... juntos. Necessidade de te ter perto, de falar com você próxima, sempre perto. Tocando sempre em você...
ELA Alguma convicção você deve ter tido em algum momento. Pelo menos para distinguir o verdadeiro do falso.
ELE O verdadeiro do falso?
ELA Para saber se o que você fazia tinha algum sentido, por exemplo.
ELE Sempre pensei que se faziam as coisas porque se tinha vontade de fazer.
ELA Só por isso? Por mais nada?
ELE Por que você pergunta tanto?
ELA Porque estou cheia de perguntas.
ELE Sobre mim.
ELA Sobre os dois.
ELE Quando eu estava na sua frente, descobria a intensidade. Deixar de estar com você era enfrentar o vazio, era horrível saber que a intensidade poderia terminar num só instante... que só dependia de você. Tinha medo que você cedesse e que tudo terminasse assim, de repente.
ELA Pronto?
ELE Não podia deixar nenhum detalhe da cerimônia, nenhum detalhe do ritual.
ELA Nada mais era importante, só a intensidade? Cada uma das ações de cada pergunta procuravam então silenciar, ou esperavam respostas equivocadas? É difícil acreditar, no entanto... tudo para justificar a intensidade. Cada instante, então, dessa cerimônia era apenas uma simulação? Para justificar os encontros, cada encontro uma simulação?
ELE Depois de um tempo, cada um de nossos encontros foi simulação.
ELA Cada um dos gestos de todo o ritual da cerimônia, do ritmo geral, todo aquele aparato, a importância dada a cada uma das perguntas? Foi simulação para todos? Sempre?
ELE Só para mim que era uma simulação. Chegou um momento em que eu desejei que alguma coisa falhasse... para justificar outros encontros. Amava sua fortaleza, era a única coisa que assegurava a continuidade.
ELA Se eu de repente cedia...
ELE Era cair, então, no imenso vazio do tempo presente, tomar contato com a consciência... Vivia das expectativas do próximo encontro.
ELA Eu soube, desde o primeiro dia.
ELE Como, desde o primeiro dia?

ELA Porque percebi que não te interessavam minhas respostas, mas sim o tom em que você formulava suas perguntas.

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