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domingo, 18 de agosto de 2013

Afirmação a partir do quadro 4

Muitas indagações:

O que ou quem gera toda essa energia que corre solta pelas ruas de várias cidades em todo o país? Em todo o mundo?

Alguma paixão deve haver para costurar tanto movimento parecido, não pode ser tudo coincidência. Que busca é essa que não tolera um nome, mas que segue acontecendo e exigindo aos corpos algum reconhecimento?

Tirando as máscaras, o gás lacrimogêneo, tirando o vinagre, tirando tudo isso e deixando apenas um homem e outro homem em meio a uma rua movimentada da cidade (da qual também os carros foram tirados). Deixando apenas o ser humano olhando para si mesmo, como pode haver diferença? Como pode haver domínio? Superioridade?

Restam homens, policiais e bandidos, munidos de suas armas (as armas que escolheram para ler e escrever o mundo). Ao mesmo tempo, saindo todo o aparato, que nos parece querer dizer o que está acontecendo (silêncio também nos helicópteros), tirando tudo isso sobramos novamente humanos. Em quais lugares nos colocamos que não podemos sair?

Que profissão, que função eu desempenho ao mundo que não seja destinada somente a mim? Eu penso sobre o que eu faço em relação ao mundo, em relação ao outro? Eu penso no tiro que eu darei, se ele tem motivo, eu penso além das ordem e das obrigações dos distintivos? Eu quero pensar. Eu não posso não pensar. Eu preciso dizer que o nome aprisionou uma legião de homens. E que agora lutam agitadamente dando-se tiros e tentando escapar do sentido que lhes foi imposto apenas pelo uso daquela roupa, daquele colete, daquela arma, daquele capacete.

E se mudarmos as roupas? Resolveríamos nossos papéis? E se ficássemos nus, veríamos como somos mais parecidos?

Em linhas afirmativas:

Fomos acostumados a cumprir funções muito determinadas. Desempenhar nosso papel, nosso ofício. Para tanto, tornou-se preciso deixar claro que eu não sou como você, foi preciso manifestar que eu tenho certas características e habilidades que você não tem. Foi preciso inventar diferença. Mas quando eu chego em casa e tiro meu uniforme – minha armadura – eu me vejo sempre tão menor, eu sou tão mais possível e tão mais feliz, porém, não há ninguém ao meu lado com a pele tão exposta para que eu possa me reconhecer. Então eu saio nu, por exemplo, no meio da noite, eu saio nu e sou considerado louco, sou chutado tal qual fazem com mendigos, índios e cachorros (seres que tem apenas a própria pele como barraca). Eu ainda estou dentro de casa. Me obrigando a perceber que é possível atravessar o nome e o uniforme e ver o que há na superfície entre dentro e fora. Isso não é uma pergunta. Talvez seja antes uma solução para o momento. Eu quero dizer: se eu quiser, eu consigo ver além das letras, ver além dos quimonos. Eu consigo - desde que eu queira - saber o que é gente, saber o que é apenas palavra, sentido, nome.
 

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