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domingo, 18 de agosto de 2013

Especulando algo em torno de uma ficção para a dramaturgia cênica.

ELA Eu vi um homem em chamas
correndo desorientado rumo a uma rua sem movimento
Eu posso ainda gora ouvir os seus gemidos
ele estava derretendo
arrancou o casaco, as botas já derretendo
e se livrou do fogo, que consumia em fogueira
o resto da sua identidade
tudo frito e tornado cinza
no chão do asfalto.
Eu me aproximei dele, foi preciso correr um pouco
e perguntei se ele precisava de ajuda
Eu estava com a minha câmera pendurada no corpo
ele olhou a câmera
mirou meu rosto
e resmungou o peito queimado, ainda soltando fumaça
Os olhos dele estavam fechados, escuros
talvez, eu pensei, também tivessem se queimado
Eu olhei o homem pós-chama jogado ao chão
bonito, delicado, queimado
eu olhei em seus olhos
e estendi meus dois braços
ele me respondeu, imediato, agarrando-me e se erguendo
fazendo meu corpo como apoio
Depois saiu mancando, me deixando parada
se aproximou do chão, onde seu casaco queimado soltava fumaça
e o ergueu
Foi então que eu vi brilhando
feito estrela
a condecoração do militar que em chamas
por alguns minutos
se perdeu da exigência de ser em si próprio a truculência
Continuei parada, não acreditando que fosse possível o que viria a seguir
Ele então arrancou sua medalha, acomodou-a ao chão
e saiu mancando
com o casaco puído de militar
querendo se passar apenas por um mendigo qualquer
disposto a morrer
mas não a matar
não mais.

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