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sábado, 17 de agosto de 2013

16 | O primeiro encontro.

Ela tenta ir embora.

ELE Aonde você vai?
ELA (se detém) O tom de certas palavras sempre remete à imagens...
ELE Sempre te perguntei aonde ia... absolutamente sempre, em nossos tempos... aqueles tempos...
ELA Aqueles tempos...
ELE Eu era possessivo. Reconheço. Antes de te conhecer, já achava que você me pertencia. Seu nome me pertencia... Enfim, eu brincava de que você me pertencia... Ainda quando eu não te conhecia, quando você era só um nome... me obcecava a idéia de te possuir... me apoderar de você como um troféu, sempre pensava em teu corpo... Me apossar de repente... de imprevisto... igual a um animal, quando caça sua presa... te invadir... assim...

ELA E por que tantas verdades... Hoje? Por acaso, algum outro jogo de intensidades?

15 | Ele espera enquanto ela está desacordada.

ELE A vida nos lança no vazio e nós dizemos no ar “vou por este caminho, escolho este outro, me equilibro entre aqui e ali”.
Bem que eu queria explicar os fatos, as circunstâncias desencadeantes, explicar as causas. Dizer: esta atitude eu posso explicar deste modo. Só posso dizer que sou absolutamente responsável por tudo, não me arrependo absolutamente de nada, minhas atitudes são a única coisa que faz algum sentido, um fio para seguir... Sou responsável por cada uma das minhas intensidades... isso é certo... absolutamente certo. Essa é minha certeza.
Qual era o problema? Agora o tempo modifica tudo, acho que o tempo modifica tudo.

14 | Ela esmorece. Ele a ajuda. Ele não permite que ela desista.

ELE Me lembro do dia, hoje eu posso te dizer que você sempre me impressionou, tenho a imagem de uma discussão ou de algo parecido com uma discussão... como um mal-entendido ou alguma coisa assim.
São retalhos, é verdade que antes de nos conhecermos... eu tinha recriado uma imagem sua... quero dizer que você me era familiar... Quando alguém me falava de você... me sentia misteriosamente atraído pelo que se falava de você... malgrado minha vontade, às vezes me pegava escutando... às vezes entendendo pela metade... às vezes tentando acompanhar uma seqüência, para entender melhor...

Você me despertava uma grande curiosidade... sempre me dava curiosidade...

13 | A tertúlia pós-sexo.

ELE Quantas vezes eu perguntei qual seria a melhor forma de te conhecer ou de me fazer conhecer, qual seria a melhor colocação, a que menos pudesse confundir ou simplesmente
te incomodar, te encher, às vezes nos tornamos complicados
não é fácil para mim falar agora, quer dizer, voltar a recordar se te digo que você foi minha única obsessão antes de te conhecer, você tem que acreditar em mim, se te digo que hoje você é minha obsessão você tem que acreditar em mim
seria absurdo que hoje eu tentasse perguntar além do que você pode me responder
e antes eu evitava te perguntar coisas que pudessem te chatear além do necessário...
mas hoje se trata de um vínculo, de uma história, de uma experiência humana compartilhada com toda intensidade
disso não podemos nos arrepender
se alguma coisa pode definir nossa história
foi a intensidade do compartilhado.
É verdade que eu às vezes era brutalmente possessivo
queria conhecer até seus mais íntimos pensamentos
não podia tolerar que houvesse algo que eu desconhecesse
Talvez a intensidade estivesse nesses momentos em que pensava que havia algo seu que existisse fora de nós
Esta porção de sua intimidade que eu não podia alcançar nunca me desesperava
Talvez isso eu nunca tenha podido te dizer, mas a meu favor posso afirmar que eu não o sabia, quer dizer, há muitas coisas da nossa relação que só agora eu posso compreender.
No princípio eu estava todo dominado pela obsessão de te conhecer
de me apoderar de tudo seu
de cada um dos teus interstícios
porque possuir-te não era só uma questão física, você bem sabe mas te possuir toda inteira, tua intimidade, o mais incomunicável é essa sem dúvida minha verdade de hoje.
Você há de imaginar que esse clima me impedia todo tipo de sensatez
os anos, talvez um pouco mais de amadurecimento, o tempo que tudo cura
permitiram que eu me colocasse de outra maneira frente às nossas coisas
mas é curioso, se por um lado me tornei mais sensato e compreensivo, a zona de mistério que ainda hoje não consigo desvendar me parece mais atormentadora agora do que antes
Porque antes todas nossas coisas pareciam que faziam parte do mistério.
Hoje eu posso chegar a compreender alguma coisa, me parece ainda mais incompreensível
aquilo que ainda não posso decifrar
ELA Necessidade de te contar coisas, palavras que crescem quando juntos
apesar de você e de mim
apesar de nossa história sempre tão diferente, tão horrivelmente diferente
só crescem
não por você e por mim
brotam sempre palavras onde só deveria existir o grande Silêncio das gritarias
cresce a lembrança apesar dos dois
que estranho espaço teremos inventado
que às vezes não posso deixar de te falar malgrado minha vontade...

12 | A tertúlia pós-tortura.

ELA Talvez fosse bom recomeçar, mas tomando em conta o trabalho já realizado.
Não é o caso de atirar tudo pela janela.
Às vezes é tão fácil esquecer cada um dos detalhes, cada uma das intensidades, por isso acho que cada momento que repetimos se transforma numa verdadeira descoberta.
Temos que procurar recordar cada detalhe dos acontecimentos com a mesma intensidade original, você não acha?
Primeiro transformamos experiências vividas em conceitos e com os conceitos nos afastamos das intensidades.
O problema dos conceitos é o esquecimento das intensidades, o esquecimento da experiência da vida, você não acha?
Falamos de coisas, de palavras que aludem a outras palavras, temos que voltar para as intensidades,
Voltar a recordar tudo segundo a segundo com nossos corpos
que não se esqueça de nada,
nada de nada,

ELE Me falta ar
ELA Quanto?
ELE Quanto quê?
ELA Quanto de falta, um litro, dois litros, você sempre foi muito preciso, por que não há de sê-lo agora?
Temos que reconstruir cada detalhe, cada instante,
senão se esquece tudo
é tão fácil esquecer...
ELE Pára que eu me sufoco, poderia te bater me falta ar

[...]

ELE Tudo explode
A desesperança não é um diálogo triste, mas sim o estalo de um Silêncio ensurdecedor.
Isso que hoje eu sinto por você
Recorte de nossas caras... de nossos corpos.
Teu corpo aqui, o que você foi, o que você é
hoje aqui, o que te dizer, meu Deus, o que posso te dizer?
Te pedir desculpas por tudo?
Não, não posso te pedir desculpas, você não permitiria
continua sendo a mais forte!
Mas por quê?
O que tem o seu corpo que hoje você ainda é a mesma?
Com a mesma força que ontem
e eu tremendo na sua frente
sempre tremendo,
Isso que eu toco que é você e não é você
primeiro foram os corpos
até onde chegaram
os vazios... sem espaços
agora a calma das intensidades
é o vazio que não tolero...
“o horror era saber que a intensidade podia terminar de repente”, se lembra?
Aquilo...
Isto, sem outro nome que ISTO tão concreto
onde começo, onde termino
onde você começa, onde você termina

[...]

ELA Pensei que você me conhecia. Esse foi seu grande erro. Você pensava que tinha chegado a me conhecer e agora sofre porque não sabe com quem esteve tanto tempo, tantas horas e aí é onde seu pequeno tormento te fala de tantas horas equivocadas
Tanto trabalho malfeito, algo que não estava previsto
você pensava que a intensidade faria desvendar até o mais intimo do que mais se preserva na intensidade, sempre alguma coisa fica protegida
o indivisível no momento da gritaria e dali essa intimidade se agiganta porque o íntimo se converte no último baluarte para se preservar.

Ali se joga a SOBREVIVÊNCIA

[...]

ELE Por que sempre as evasões ganhando em teu Silêncio?
E queria que você gritasse todas as verdades
que me olhasse mais em teu Silêncio...
Se você pudesse me insultar, quebrar a calma, perder o controle um momento, apenas...
se você pudesse falar de nossa história, de toda nossa história... da verdade da nossa história compartilhada.
Você não falou antes e não quer dizer meu nome agora
quem sou eu então?
Você me olha nos olhos como antes me olhava quando eu te dizia a pergunta que nunca me respondia.
Cheguei a te pedir que inventasse nomes que eu só necessitava um nome inventado só para que você dissesse algo para ter um nome entre você e eu alguma coisa que nos pertencesse o nome era tua entrega qualquer invento era legítimo e o importante chegou a ser que você jogasse de ceder, nem sequer eu pedia que cedesses... que brincasse apenas...
só um invento uma brincadeira entre os dois cansei de te pedir realidades
mas você nem sequer me concedeu o “jogo” tua ética não permitiu não te peço muito... apenas que me tenha como parte da sua história porque foi importante, não?
Nosso caso foi?...
Por que você não me denuncia filha da puta?
Confessa meu amorzinho grita bem alto para que todos ouçam quem sou eu, grita alto que eu te fiz
você é sempre a mesma merda de antes e agora
te peço que diga a verdade
que conte o que eu te fiz
necessito isso para mim
é o meu triunfo

11 | Ela assobiando nos olhos dele.

ELE Me apoderar do seu corpo, dos buracos dos seus cheiros
cada zona do seu corpo que eu golpeava
sabia a cor de cada um dos hematomas
antes tinha algum sentido, diziam que eu não conseguiria te tirar nenhum nome nunca...
agora não te entendo você pode gritar meu nome para todos e outra vez prefere calar e não falar
confessa filha da puta grita quem sou eu quem fui grita o que aconteceu entre nós não me negue mais.
Porque eu existi. Eu fui.

Por quê? Por quê? Por que não diz o meu nome?

10 | Ele bate nela.

ELA Agora é o momento.
Talvez possamos reconstruir
as palavras nos servem para esquecer, muitas vezes tentamos falar para esquecer.
Lembra-se daquelas longas tertúlias nas quais falávamos para esquecer o que tinha acontecido?
Cada frase que dizíamos sepultava cada acontecimento.
Tentávamos esquecer o que tinha crescido entre nós
é disso que se trata
de reconstruir tudo
o mistério de cada acontecimento no detalhe.
Por acaso se pode falar de tudo isso?
Se pode falar da morte, da dor sem evocá-las com a proximidade dos nossos corpos, ou simplesmente evocamos tudo isso para esquecer os horrores e para transformar o horror em palavras que já não significam nada
Te sufoco, te faço mal? Passa o ar?
A traquéia ainda resiste?
Quantos sufocados?
Agora sim, estamos juntos, quantos com a cabeça no barro?
Sem poder respirar
Corpos nus, mutilados, agora sim estamos juntos
Agora sim, agora sim.

Podemos recordar juntos, você não acha?

9 | Quando ele a despiu.

ELE Nós sabíamos aproveitar o tempo... Eu tinha pedido para te ver, assim que fiquei sabendo que... Bem, que íamos nos conhecer... Me lembro desse dia, o primeiro encontro, esses seus olhos, tão incrivelmente perscrutadores e tão belos sempre... Perguntei seu nome, você disse alguma coisa como Carlomagna, comecei a rir, você riu, acabamos rindo os dois por um bom tempo, não tínhamos nos falado, mas em compensação o riso dos dois foi nosso primeiro selo de encontro.
Você deixou de rir e me olhou, acho que me disse não é necessário, te perguntei não é necessário? Você disse que não é, eu te disse necessário o quê Você disse não é, pedi que falasse claro que eu começava a me irritar, você disse que não tinha culpa se eu não entendia, que você falava pouco, que ia falar muito pouco e que não se sentia responsável pelo que eu não fora capaz de compreender, que eu não compreendia que te dissera nada, respondeu, incrível, disse, eu você é incrível e comecei a rir a gargalhadas
você me feriu no orgulho
você me feriu no orgulho
não sabia se estávamos brincando nossa primeira brincadeira, não sabia se os dois participávamos do mesmo jogo, como eu te sabia inteligente, suspeitava que você jogasse o jogo sozinho e que eu fizesse o papel de imbecil, rindo sozinho. Parece que você disse que eu estava nervoso ou alguma coisa assim, havia uma precisão em suas palavras, quer dizer, o que você falava era muito exato.
Se falava sobre suas contestações, sobre suas respostas rápidas e lúcidas...
te confesso que estava prevenido, tinha me dito que o importante para estabelecer qualquer tipo de conversação com você era não te olhar nos olhos, que eu falasse sem olhar para você
porque se o fizesse ia cair na sua rede, entende?
Suas pouquíssimas palavras, a necessidade de não ter que explicar nada
Seus Silêncios nos momentos mais difíceis, que poderiam aludir a tantas coisas...
suas saídas insólitas que aprofundavam ainda mais o mistério de nossa existência

[...]

ELA Não quer um copo de água? Não tem sede?
Paramos aqui ou continuamos?
Você está cansado.
Recomeçamos ou paramos por aqui?
É que um trabalho tão intenso deveria às vezes levar em conta a fadiga física.

Mais um pouco de água? Quanto faz que você não come?

8 | O único instante em que gargalharam.

ELA Somos, fomos, você e eu, nossas histórias, nossas certezas.
Nossa maneira de sentir as coisas, disso não podemos nos arrepender
Cá você, lá eu,
é a distância que nos ajuda a nos reconhecer
que mistério é o que se cruza entre nós dois
fazendo-nos esquecer tanto passado quem sabe se somos tão diferentes
o que terá crescido tanto entre nós dois?
alguma coisa que não entendo, alguma coisa mais além que me faz
sentir ambígua e que me produz terror ter sentido piedade em algum momento
Como foi que surgiu, apesar de mim, isto da piedade entre os dois como piedade converter-me em piedosa eu que nunca o fui
ELE Um domingo de tarde eu tinha ido te visitar e tinha levado torta de ricota que você gostava, porque tinha me dito um dia
Você perguntou quem era meu pai
Meu pai?, disse eu, me ouviu bem, me disse eu não sei quem era meu pai, te disse, sabia, me disse, e depois de provar a torta perguntou e tua mãe? Minha mãe, sim, eu conheci bem
Imaginava, disse você
curioso, do meu pai eu só tenho lembrança, uma lembrança que sempre me volta...
como se toda a relação com meu pai se revelasse através dessa lembrança
eu tinha perto de nove ou dez anos
tinha chegado em casa chorando, porque uns meninos tinham me batido na rua
meu pai perguntou que idade tinham os meninos
eu disse que eram maiores que eu, que tinham doze ou treze anos
me disse que queria vê-los, prometeu que não ia se meter com eles que só queria vê-los
fomos juntos caminhando até a praça onde a turma em geral se reunia. Estavam lá. Não nos viram. Papai perguntou qual tinha sido o que tinha me batido.
Mostrei um deles o maior deles para mim, que tinha bigodes
meu pai me disse e esse idiota te bateu?
Vai lá e bate nele agora mesmo
eu não vou deixar que nenhum outro menino se meta
anda e fala para ele que você veio bater nele sozinho
eu olhei o menino de bigodes, me pareceu maior que nunca tive uma sensação física de debilidade enorme, sentia que ia desmaiar, tremia de medo...
Você tem que brigar com ele, anda, o garoto jogava bolinhas papai estava impaciente com minha covardia, anda não seja cagão
anda vai e bate nele
e quanto mais papai insistia mais eu me aterrorizava.
Agora é o momento, anda e diz que quer brigar com ele sozinho, sem os amigos, que você quer bater nele sozinho você vai ver como se encolhe, certeza que vai se encolher.
Eu não saía do terror, tinha a impressão de que era muito maior e muito mais forte do que eu, mas papai insistia.
Para mim essa cena não acabava mais, foi eterna
é provável que tenha durado apenas um ou dois minutos
só sei que num momento disse pro meu pai
quero ir embora pra casa, não tenho coragem
Certeza que não tem? Me lembro de seus olhos. Sua expressão desembaraçada, sua frustração infinita. Seu filho era um covarde.
Não podia acreditar, não tenho coragem é maior do que eu lhe disse...
não, não é maior, se você não tem coragem não se engane a você mesmo e vamos para casa... e voltamos caminhando em Silêncio junto.
Ainda depois de muitos anos, sempre tive a sensação de que papai nunca me perdoou essa covardia...
que marcou nossa relação para sempre. Esse dia permaneceu oculto entre nós
vergonhosamente silenciado e cúmplice.

Foi a marca por onde transitou nossa história.

7 | Ela no segundo anterior à morte.

ELA Você sabe por quê?
ELE Por quê?
ELA Eu pergunto se haveria em você algum tipo de convicção, pelo menos nos primeiros tempos, quando nos conhecemos, nos começos.
ELE Convicções, convicções...
ELA Idéias, simplesmente idéias.
ELE Eram apenas nossos encontros que modificavam tudo... Custei a perceber isso. Porque você se transformou em NECESSIDADE para mim. Necessidade dos nossos corpos... juntos. Necessidade de te ter perto, de falar com você próxima, sempre perto. Tocando sempre em você...
ELA Alguma convicção você deve ter tido em algum momento. Pelo menos para distinguir o verdadeiro do falso.
ELE O verdadeiro do falso?
ELA Para saber se o que você fazia tinha algum sentido, por exemplo.
ELE Sempre pensei que se faziam as coisas porque se tinha vontade de fazer.
ELA Só por isso? Por mais nada?
ELE Por que você pergunta tanto?
ELA Porque estou cheia de perguntas.
ELE Sobre mim.
ELA Sobre os dois.
ELE Quando eu estava na sua frente, descobria a intensidade. Deixar de estar com você era enfrentar o vazio, era horrível saber que a intensidade poderia terminar num só instante... que só dependia de você. Tinha medo que você cedesse e que tudo terminasse assim, de repente.
ELA Pronto?
ELE Não podia deixar nenhum detalhe da cerimônia, nenhum detalhe do ritual.
ELA Nada mais era importante, só a intensidade? Cada uma das ações de cada pergunta procuravam então silenciar, ou esperavam respostas equivocadas? É difícil acreditar, no entanto... tudo para justificar a intensidade. Cada instante, então, dessa cerimônia era apenas uma simulação? Para justificar os encontros, cada encontro uma simulação?
ELE Depois de um tempo, cada um de nossos encontros foi simulação.
ELA Cada um dos gestos de todo o ritual da cerimônia, do ritmo geral, todo aquele aparato, a importância dada a cada uma das perguntas? Foi simulação para todos? Sempre?
ELE Só para mim que era uma simulação. Chegou um momento em que eu desejei que alguma coisa falhasse... para justificar outros encontros. Amava sua fortaleza, era a única coisa que assegurava a continuidade.
ELA Se eu de repente cedia...
ELE Era cair, então, no imenso vazio do tempo presente, tomar contato com a consciência... Vivia das expectativas do próximo encontro.
ELA Eu soube, desde o primeiro dia.
ELE Como, desde o primeiro dia?

ELA Porque percebi que não te interessavam minhas respostas, mas sim o tom em que você formulava suas perguntas.

6 | O momento em que ele sequestra ela.

Silêncio.

5 | Ele fazendo curativos nela.

ELE (enquanto fala deve realizar todos os movimentos sugeridos pelo texto) Olhando para a frente. Talvez de perfil. Agora olho na minha mão. Viro a cabeça para a direita, agora para a esquerda, posso olhar outras vezes para a frente. Pausa. Não. Tenho que fazer alguma coisa, golpeio meu joelho esquerdo. Me levanto. Me sento. Coço o nariz. Trato de que cada gesto tenha sentido, quer dizer, que adquira uma dimensão de espontaneidade. Não quero vazios. Olho para a frente, bruscamente para trás. Me agrada olhar um ponto fixo. Me sustenta. Lustrada de sapato nas calças. Necessito de mais atos. Uma boa massagem no pescoço, rotação de cabeça. Tudo como se fosse normal. O tempo se deteve. Um bocejo, outro bocejo, um leve sorriso, uma penteadinha, coçada na testa, batidinha de sapato no chão. Assobio. Assopro. Vou ao banheiro. Não estou com vontade. Volto. Me sinto bem. É preciso aprender a se sentir bem. Olho o teto. Como falta ainda, meu Deus! Lustro outra vez o sapato direito. Faço de conta que penso em algo concreto que me preocupa. Faço gestos de quem descobre alguma coisa. Assumo uma cara de safado. Imagino que me lembro de uma aventura amorosa. Imagino os lugares. Me distraio um momento. Volto ao vazio. Não! Quanto falta? Penso em minha mãe. Tento reter a imagem do rosto da minha mãe. Me lembro. Me coça o nariz. Deixo que me coce... para ganhar tempo enquanto me coço. Me coço um pouco. Me esfrego. Uma pausa depois de tanto esforço. Que fazer, meu Deus! Um pouco de esperança. Dura pouco. Agora, desesperança. Finjo que esqueço uma coisa e agora me lembro. Abro a boca. Fecho. Tusso. Tusso duas vezes. Tusso três vezes. Agora finjo que me sufoco. Faço de conta que me recupero. Como continuo? Quanto falta? Mudo a cadeira de lugar. Torno a mudar a cadeira de lugar. O tempo não passa. Me sento no chão. É bom sentar no chão, muito bom. Ando. Paro. Ando. Mexo os quadris. Sou homem. Sou mulher. Sou criança. Sou animal.
Que pretensioso! Um pouco de representação, um pouco de humor, de bom humor, de humor fino, de humor inglês.

Pausa. Pausa. Pausa. Comecemos outra vez. O que acontece se eu me deixo ficar? As imagens se detêm. As caras como imagens sem dimensões. Tudo plano. Talvez um pequeno discurso, ou melhor, um método, algum recurso que pudesse me distrair... Pausa. Quanto falta, meu Deus! Como demora... tudo isso demora muito... pensar eu não posso... já gastei o pensamento de sustentação... preciso de altos, ações... 

4 | O domingo de tarde com torta de ricota.

ELA Lá, nas nossas intensidades, focos de luz deformando nossos rostos, a maca em posição inverossímil, a eletricidade e seu protagonismo, as pancadas secas, algodões e o cheiro de sangue coagulado, desafio aos limites de hoje e um pouco mais, a música que parecia nascer dos nossos próprios corpos. Agonias, os suores frios, a morte espreitando, tudo isso reunido entre nós, objetos com força própria, movimentos diferentes e ali nossos corpos, fazendo parte de tudo isso. Nos enganamos quando pensamos que nós é que gerávamos as paixões e a energia, porque quando todo o dispositivo desaparece nos encontramos só com nossa nudez, você e eu, descobrimos com horror que as paixões tão nossas faziam parte da cenografia do acontecimento. Por isso hoje só você e eu enfrentamos o vazio da perda do sentido, e isso é insuportável. Na minha memória só ficou disso tudo a lembrança dos movimentos.

3 | Ele se preparando para conhecê-la.

ELA Não direi o seu nome. Você preferiria que eu te denunciasse, que contasse tudo
Sei que assim você se sentiria melhor orgulhoso de que todos soubessem que me bateu.
Você quer ser herói como todos os demais orgulhosos outra vez do que fizeram
orgulhosos de andar soltos desafiando e ameaçando sempre... outra vez heróis...
você é muito deturpado e não vou dizer nome você vai seguir esperando... esperando sempre...
será esse seu pequeno tormento te conheço bem
é a única maneira de estar prisioneiro não vou falar
não te conheço você é irreconhecível mais um de todos ELES
você quer ser herói e se sente herói e se sente anônimo...
Vou ficar em Silêncio. Meu Silêncio é sua prisão. Meu Silêncio são os gritos em sua cabeça ali ninguém vai poder te soltar
você sabe que não
ali você continuará esperando sempre
prisioneiro dos gritos prisioneiro dos pânicos
talvez algum dia quem sabe ou talvez nunca
porque agora o tempo é meu.
Não vou falar,
Não vou te fazer HERÓI nunca
você vai continuar esperando fechado no meu Silêncio.

Não vou dizer o seu nome...

2 | Quando todo o dispositivo desaparece.

ELE Não tem razão de ser, não faz sentido.
No momento oportuno você a assobiava.
Pensei que poderia ser o começo de alguma coisa entre você e eu
como um aviso que insinuava algum próximo encontro
pensava que o assobio podia corresponder a algum estímulo e que talvez cansada de você mesma, de teu Silêncio, você começasse a assobiar como uma forma primitiva de diálogo.
Lembro minhas esperanças, minhas promessas, minhas expectativas.
Você continuava assobiando, sempre me olhando nos olhos, nunca deixou de me olhar
você começava a fazê-lo com mais força, com mais ritmo até que parou em uma longa pausa. Eu, tremendo, perguntei se você queria dizer algo e você não respondeu, te ofereci um cigarro, acho que já aceso, esperava algum gesto mínimo de reconhecimento, alguma coisa que me permitisse intuir seu possível interesse, como uma trégua
minha mão e o cigarro ficaram no ar
você não respondeu nem pegou o cigarro e continuou assobiando

enquanto seus olhos me seguiam, apaguei o cigarro e pensei que talvez não tinha chegado ainda a oportunidade do nosso encontro

1 | Ela está solta e oferece um copo de água para ele. Ela simula uma situação de cuidado.

ELE Quem
ELA Ela
ELE Ela quem
ELA Quem ela
ELE Quem ela quem
ELA Ela quem quem
ELE Eu falo sério
ELA Quem quem ela
ELE Quem
ELA Ele
ELE Ele quem?
ELA Quem ele
ELE Quem ele quem
ELA Ele quem quem
ELE Eu falo sério
ELA Quem quem ele
ELE Quando
ELA No destempo
ELE Onde.
ELA Juan Arriveños, 341
ELE Quem
ELA Almoçando com o que sorri à direita
ELE À direita de quem
ELA Mais para trás Peter
ELE Como?
ELA Loiro com alguns cabelos brancos, é difícil distinguir os brancos dos loiros
ELE Quem
ELA Peter e Juan
ELE Onde?
ELA Se conheceram num churrasco de uma menina de sobrenome Ocampo
ELE Quem como?
ELA Boa gente, um tanto tímida, que se formou no Colégio Northlands de Olivos, de onde surgiu Lea Fate, jogadora de hóquei do Sury
ELE Lea quê?
ELA O irmão Paul Fate jogava rúgbi em Quilmes. A relação entre Ocampo Peter e Juan não deixa de ser um mistério.
ELE Aqui há mistérios
ELA Ocampo tinha relação com Peter e Juan. Juan tinha relações com Ocampo. Peter tinha relação só com Juan. Portanto Ocampo levava vantagem de conhecer os corpos de Peter e de Juan. Juan conhecia o de Ocampo
ELE Mais devagar
ELA Peter conhecia o de Juan e o de Ocampo. Juan se apaixonou por Peter e Peter por Ocampo. Logo depois de separaram porque os três sofreram muito
ELE Não acredito. Quem?
ELA Ela
ELE Ela quem
ELA Quem ela
ELE Quem ela quem
ELA Ela quem quem
ELE Eu falo sério
ELA Quem quem ela
ELE Quem
ELA Ele quem?
ELE Quem ele
ELA Quem ele quem
ELE Quem quem
Eu falo sério
ELA (gritando) Quem quem ele
ELE De onde era?
ELA Quem
ELE Peter
ELA Da Irlanda do Norte
ELE Não acredito

comecemos outra vez

quarta-feira, 17 de julho de 2013

reencontro #3

quarta-feira, 17 de julho de 2013
sede inominável - 13h/16h
adassa martins, andrêas gatto, bruno marcos, diogo liberano, flávia naves e natássia vello

engraçado. acabo de perceber que escrevo reencontro, quando, na verdade, se trata de encontro. nessas configurações, nunca estivemos. gente nova, desperta. sei lá. não é um problema. é só uma percepção solta.

hoje foi também especial. focamos em apenas uma leitura do texto, apenas do personagem masculino, ele, lido pelo andrêas. porém, antes da leitura, eu, bruno, natássia e também andrêas nos fizemos perguntas para que fossem especuladas durante a leitura. ao término, respondemos a partir do olhar que cada um pode lançar à leitura do personagem.

descobrimos algumas coisas: ela é o primeiro caso de tortura dele. ele nunca havia torturado alguém antes. descobrimos também o que nela causa nele algum tipo de fragilidade: o olho no olho, os assobios e as evasões, o não dar nome. curioso detectar um teor líquido nela, capaz de fugir, difícil de ser pego. também, por conta das perguntas feitas, chegamos aquilo que ele não pisaria. (pisar em todos os sentidos). ele não piso no espaço, mas talvez pisasse no tempo (para cessar o avançar das horas).

quanto mais o tempo passa mais a morte dela se confirma. por isso, talvez, ele não queira ver o tempo passar. ele se ultrapassa, projeta antes ou no depois, mas não neste agora. não neste agora.

amanhã faremos o mesmo exercício, porém, lendo apenas o texto dela. e faremos novas perguntas para desvendar o impossível.
 

terça-feira, 16 de julho de 2013

reencontro #2

terça-feira, 16 de julho de 2013
sede inominável - 13h/16h
adassa martins, andrêas gatto, bruno marcos, diogo liberano e natássia vello

engraçado. neste segundo encontro não fizemos leitura da peça, no entanto, por conta do papo, das coisas ditas, voltamos inúmeras vezes ao texto. movidos por lembranças de falas, esquecimentos de trechos, linhas decoradas e explodidas no ímpeto de dizer o que se pretendia dizer.

hoje foi especial porque sem afobação, eu fui dizendo o que tinha sido o processo para chegar a alguma compreensão do texto. como disse aos meninos, demandou muito tempo de leitura, de pesquisa (tudo registrado nesse blog). e assim, confesso, percebi que o que já temos de compreensão não muda. apenas serve para aprofundarmos ainda mais a nossa ousadia deste agora. ir mais fundo, mais longe, ser mais categoricamente claro na proposta, na escrita.

bruno falou da diferença entre cristalizar e clarificar. é isso, bruno. clarear, deixar claro, transparente, possível a uma arena. possível de ser visto por todos os lados. eu falei do desenho do cenário - que eu assino/assinarei. falei da área quadrangular; medimos algo entre 4m² e 3m². algo entre isso (digo, largura e comprimento). uma área de no mínimo 9m² e de no máximo 16m².

falei do blindex. do chão de vidro. sobre o qual resta a estortura. falamos do filme o último tango em paris, que foi o que me fez sentar e começar a escrever sobre não dois, em dezembro de 2008, quando nasceu - ainda sem saber - o teatro inominável. falamos sobre o realismo capitalista. sobre o artigo do thomas ostermeier (leia aqui) que, ao falar de um teatro contemporâneo (como em muitos casos é o nosso, carioca), diz:

A poetologia desse teatro baseia-se na ideia de que a ação dramática não é mais de nossa época; que o homem não poderia se compreender como mestre de suas ações; que existem tantas verdades subjetivas quanto o número de espectadores presentes; que os acontecimentos representados no palco não exprimem nenhuma verdade válida para todos; que nossa experiência fragmentada do mundo somente encontra sua tradução num teatro fracionado, em que os gêneros se justaponham: corpo, dança, fotos, vídeos, música, palavra... Essa imbricação sensorial assegura ao espectador que este mundo caótico permanecerá para sempre indecifrável e que não há espaço para procurar ligações de causalidade ou culpados.

essa citação chama atenção para um desejo inédito: encontrar culpados. levantar dedos. apontar. acusar. não mais ser imparcial. saber ser parcial, com provas, com sentido e lógica, com opinião, oferecer ao espectador um olhar (para que, mesmo discordando, ele também possa pensar/ser a sua opinião sobre o mundo).

sobretudo, me parece importante frisar a noção de sobrevivência (leiam esta postagem, de 24 de outubro de 2009). sobre como ele, ao perdê-la, se perde. e sobre como ela, ao se deixar morrer, também se perde para sempre. do esforço de sobreviver, de durar.

é, mais uma vez, mandar ver no presente agora. que prazer é estar imerso em criação (de outro mundo).
  

segunda-feira, 15 de julho de 2013

reencontro #1

segunda-feira, 15 de julho de 2013
sede inominável - 13h/16h
adassa martins, andrêas gatto, bel flaksman, bruno marcos, diogo liberano, flávia naves, natássia vello e thaís grechi

primeiro reencontro (mesmo contando com tantas novas presenças). hoje começamos o nosso re-processo de não dois, a partir da obra paso de dos de eduardo pavlovsky. a verdade é que não é a partir. é a obra em si, porém, não abrimos mão do nosso título. ele traz a pegada, a nossa visão sobre o texto do dramaturgo argentino.

após uma única leitura do texto (eu ouvi a leitura em português, traduzida por maria angélica keller de almeida, e fui acompanhando a versão original, em espanhol). passa rápido, mas fica. 31 minutos de leitura, mas tanta coisa incompreendida. esse texto, ainda hoje, consegue manter tantas indagações, tantas feridas abertas.

chegamos ao assunto do momento: ditadura argentina? ditadura brasileira? comissão da verdade? manifestações que estão acontecendo nesse brasil de 2013? nesse mundo de agora?

onde ecoar o drama escrito? se antes o nosso foco tinha sido a relação de horror e afeto entre dois seres humanos, um homem e uma mulher, agora, porém, nos parece difícil não acessar o viés da história. poderíamos omitir, mais uma vez - como na montagem original, por escolha do estômago - poderíamos escolher ficar no afetivo, no passional, no um a um, homem versus mulher. mas não. não. homem e mulher são homem e mulher em sociedade. é preciso entorno.

por isso, capturar o drama fora dele. na cidade, no país, no passado, no tempo, lá longe, lá fora... assim, procedimentos novos se anunciam.

após muita conversa/discussão, chegamos a um ponto: trata-se do artifício. somente a arte pode nos possibilitar essa investida na vida para além dela própria. brincar de morte, poetizar para desdobrar a nossa percepção/ação de mundo. será artificioso, para que se devolva a vida a ela própria.

parece ousadia. e talvez seja. tudo bem.

é seguir. mais uma vez (e dizer/escrever isso nunca fez tanto sentido).

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sábado, 20 de agosto de 2011

# 43

20 de agosto de 2011, Quarto de Natássia, 20h/22h30diogo, natássia e dan.

temos uma apresentação marcada para 23 de setembro, dentro de um festival na unirio, aqui no rio de janeiro.

ESPAÇO DO DELÍRIO + TEMPO DILATADO
Nat perguntou qual é o ponto de vista da peça. Eu disse que o ponto de vista é aquele composto por quatro câmeras de segurança, monocromáticas, quase sem áudio…; Transparece a coisa do horror e afeta, ao cambiarmos as direções, os pontos de vista das câmeras. Nat diz que é real apenas o movimento.
O ponto de vista externo é móvel e por comportar vários pontos de vista. No final do espetáculo, o ponto de vista que emerge é o d’ELA.

Prólogo > UM FIO PRA SEGUIR.
ELA > no prólogo ELE tá num fluxo de pensamentos, acontecimentos, imagens, recordações, é uma mistura de quase tudo que vai depois aparecer com mais clareza durante a peça. é uma expurgação. um fio para seguir, nesse sentido, é quase como a possibilidade, pensando no registro, é como se tivesse colocando tudo muito rápido, como se tivesse passando rápido tudo. todo o registro embaralhado e um fio para seguir é a possibilidade de ordenar tudo isso. nunca é só um olhar externo é uma tentativa de reconstrução.
ELE > porque ele está no fim da linha, já não há mais para onde seguir e o embuste que ele arruma pra si mesmo, a desculpa ou a fuga que ele consegue desse lugar de onde não se pode fugir é justamente ficar preenchendo esse tempo com ações. na verdade, não, preenchendo esse tempo com a ação principal de falar. por isso é um fio. é vazio. um palavrório. a descrição de ações. basicamente, esse é o fio. que ele se agarra na ilusão de estar seguindo para algum lugar. ponto final.

Primeiro Movimento > SIMULAÇÃO.
ELA > pegando pelo texto é porque ela descobre que tudo foi, é como se tudo tivesse sido forjado. não importa as minhas respostas, importa como você formula as suas perguntas. é a descoberta da estrutura, do dispositivo, do molde. a descoberta da forma. descoberta de que aquilo é uma mera reprodução. ela é memória, ela é movimento. é reprodução pra ambos. ele também é, memória, nesse sentido. aquilo é um dispositivo e é na verdade um… não sei. pode se dar em várias camadas. tem a camada do lugar, se a gente pensar na ação presente, tem o lugar do calculado e da mise-en-scene do momento. tem o lugar do se perceber registro e memória. nesse sentido, os dois não podem fugir do que já passou. a gente modifica o que aconteceu pelas intenções. é simulação porque é como se fossem várias camadas, um olhar externo pro que já aconteceu e a percepção de que ela é só um dispositivo. num lugar presente, é um lugar de manipulação dele, de indução… do forjar uma relação. o desespero todo é estar presa nisso, nesse forjar. não interessa o papel dela ali.
ELE > bom, eu não sei dizer especificamente, mas acho que em todo o movimento da peça e na história dele, nessa história a simulação sempre esteve presente. esses encontros onde ele buscava arrancar dela alguma verdade. ele usava esse artifício da simulação pra simular coisas, simular afetos, simular… e ai, nesse momento do primeiro movimento, é, eles falam sobre isso. que só pra ele era uma simulação. porque eles estão revisitando essas visitas. ele, pra mantê-la perto dele, para mantê-la subjugada, dando sentido à existência dele. e ela pra, ainda que morta, não entregar a ele o que ele durante a vida quis arrancar dela, que é justamente a palavra, o nome.

Segundo Movimento > MEMÓRIA
ELA > é memória porque simples, muito simples, é o momento da peça em que ações são reveladas, momentos são revelados e não necessariamente uma memória real, existencial, talvez inclusive uma memória inventada. quase que as coisas são, a relação dos dois é embasada, justificada. é um momento, quase, em que eles são, eles se tornam existentes. é uma tentativa de dar existência para os dois.
ela tem o entendimento de que está morta. é uma libertação desse dispositivo.
ELE > coisa muito simples. bom, há esse dado onde ele faz um relato de uma memória, da infância, talvez tenha sido uma das simulações, uma das aproximações que ele usou pra se tornar mais íntimo dela. é o momento da peça onde a figura dela surge novamente pra ele. onde ela descola da estortura e passa a viver, ali, na frente dele, falar com ele. isso tudo faz parte da memória dele.

Terceiro Movimento > TORTURA
ELA > esse movimento é uma tortura que ela faz nele, com ele. é o movimento das repetições. é como se fosse um registro, ele tá voltando, voltando, voltando pra buscar alguma coisa ali. se é memória, ele tá lembrando, lembrando. jogando com esse lugar. é uma tentativa dele de saber alguma coisa, é um interrogatório: ele quer os nomes e ela dá um monte de nome que não significa nada. é quando a partitura realmente começa. ela é uma partitura de manipulação dele. essa repetição da partitura é quase um lugar de tortura. ela tá torturando ele: é uma repetição de memória. a leittura é a tortura dele. ele tentando descobrir e ela tentando se esquivar dele. repetindo, repetindo para buscar brechas e nada se acha.
ela descobre que depende dela. que ela tem o poder. ela descobre que ele tá querendo tirar alguma coisa dela. o terceiro movimento é quando ela descobre a importância dela e ai ela manipula.
ELE > não é uma tortura pra ele. mas, no terceiro movimento, os dois simulam, revisitam, apresentam esse lugar da tortura. esses encontros onde ele através da violência buscava tirar informações dela. essa tortura é mostrada de maneira simbólica no sentido de que, apesar de ele ser o torturador, ela joga com ele, inventa nomes. quem quem ela ele quem ele quem ela: é  um desenho do que significava a tortura em si. desenhou-se o símbolo de brincar com ele, de não falar. um desenho, uma expressão poética do que seria essa tortura. e não a tortura em si porque ela é um corpo morto.

Quarto Movimento > INTENSIDADE
ELA > porque esse movimento é quase um desespero de onde a palavra chegou. palavras que crescem quando juntos. é quase o nível de especulação da palavra deturpou muita coisa e levou muito entendimento. eu cheguei desesperada por conta de tudo o que foi especulado até então e ver que nada se encaixou. e que na verdade querendo… ela tem esse lugar do entendimento. não sei se é o ápice dela. não é o ápice dela. ela tá entendendo o lugar de intensidade que chegou. ela tá nesse nível. ela tá na intensidade de vibração que é quase apática. é muito intenso mas não transborda. não é tão externalizado como ele, que tá vibrando pra fora. é tanta especulação que já não se sabe mais nada, é difícil voltar ao início. tamanha foram as memórias, as simulações e as torturas. 
ELE > porque é no quarto movimento que ele se descontrola. o descontrole dele era interno e havia uma tentativa de controle. ele se enraivece. fica puto da vida. perde o controle. ele grita, ele esbraveja, ele sai da partitura e ao final do quarto movimento, ele desiste. ele cai. ele se deixa cair. ele tomba. ele já não… ele só vai levantar dali escalando ela.
a desistência é um abandonar da intensidade. ele buscava a intensidade. a intensidade do encontro era o que valia cada encontro. a intensidade está na violência do encontro. a intensidade é esse misto de horror e de afeto que foi se criando e desenvolvendo entre esses dois seres.
a visão dela aparece quando ele desiste.

Epílogo > CENOGRAFIA DO ACONTECIMENTO.
ELA > cara, eu não sei se ele vira a cenografia do acontecimento. acho que o epílogo evidencia a cenografia do acontecimento. o epílogo evidencia esta cenografia ao mostrar o ponto de vista dela na mesma partitura que o ponto de vista dele aparece. a partir do momento que ele mostra o ponto de vista dela nesses mesmos movimentos, você evidencia a cenografia do acontecimento. no sentido de que o acontecimento é aquele, os movimentos são aqueles. só se pode ter certeza daquilo.
a cenografia é a materialidade. a cenografia do acontecimento é a materialidade dos movimentos, das ações, independente das ações. independente dos sentidos.
o que fica é a imagem. o que fica é pensamento. a cenografia são as imagens que são formadas. são os corpos. é a única certeza.
ELE > muito simples, porque tá escuro. o acontecimento é a morte. a morte, se bem me lembro, é escura. quando a pessoa morre é escuro. o que acontece: a coisa começa na penumbra. a cenografia é o escuro. vem uma luz que remete ao corpo dela, que é a coisa mais material e verdadeira que tem ali. o acontecido foi esse.

próximo ensaio: sábado, 27 de agosto, de 10h às 14h, na UNIRIO.

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